Do jeito que está, quarentena transfere renda ao contrário

Do jeito que está, quarentena transfere renda ao contrário

"Esse tipo de quarentena, que fecha tudo sem analisar as características de cada região, sem olhar com atenção caso a caso, categoria por categoria, gera uma situação nociva e injusta. É o Brasil, mais uma vez, fazendo a transferência de renda ao contrário. Fazendo o pequeno transferir renda para os grandes". 

A frase é do empresário Fernando Pachiarotti, presidente do SinHores, e por isso mesmo, representante do setor de hotéis, restaurantes, bares e similares na região de Araraquara. E as palavras do empresário chamam a atenção para um ponto bastante significativo da crise: tem, sim, alguns setores lucrando muito com a quarentena.

"Tem gente que não quer que isso acabe nunca. Para os supermercados e hipermercados, essa quarentena é como um segundo Natal, só que muito mais estendido. Eles nunca venderam tanto", analisa, lembrando que as grandes redes são as maioresbeneficiadas E ele explica o porquê.

"Esse sistema está permitindo lucros enormes, por exemplo, para aquelas grandes redes que vendem alimentos, mas também vendem produtos eletrônicos, como TV, celulares, eletrodomésticos ou mesmo calçados e roupas. Esse pessoal está trabalhando sozinho, sem qualquer concorrência. Estão vendendo horrores. Para eles, não existe crise e o isolamento social está sendo ótimo", define.

Do outro lado, destaca Fernando, estão os bares, restaurantes e lanchonetes, todos à mingua e sem qualquer perspectiva.

"Nossa categoria é a que mais emprega. E nossos funcionários, na sua maioria, são pessoas que lutam com a vida. Guardam dinheiro, compram sua casinha, financiam seu carrinho, assim como a maior parte do brasileiro comum. São eles os maiores afetados pela crise, pelo desemprego que já está chegando", analisa.

E ele prevê: "Essa parcela da população, e a maior parte dela vai passar por isso, vai perder suas economias, seu carrinho, sua casa. Ou vão vender tudo para comer e sustentar seus filhos. E quem vai comprar? O grande. Mais uma vez, é o Brasil beneficiando o grande. É uma situação injusta, perversa e nociva", disse.

Finalizando, Fernando pede a atenção das autoridades para o setor da alimentação. "Nossos custos são altos, nosso estoque perecível. Ninguém aguenta mais", explica

"Não somos contra a saúde, muito pelo contrário. Queremos caminhar lado a lado com ela. E, mais: quem tem um colchão maior, dinheiro guardado, salário garantido e pode ficar parado, fique até o Natal ou até quando puder", destaca.

"Mas que esse cara não se esqueça de que para ele comer e ficar em casa, alguém tem de produzir, alguém tem de plantar, alguém tem de dirigir pelas estradas para transportar esses alimentos. Quando ele pede algum produto pelo telefone ou aplicativo, nada vai chegar em sua casa por milagre. Tem alguém entregando. Então, tem gente trabalhando", lembra.

"Peço a confiança das autoridades e um olhar mais atento. Ainda há tempo de salvar algumas empresas e alguns empregos", apelou.