Eleições municipais podem registrar abstenção recorde

Eleições municipais podem registrar abstenção recorde

Levantamento realizado nas principais capitais brasileiras apontam para um considerável aumento no índice de abstenção nas eleições municipais que se aproximam.

As causas, segundo o estudo, vão desde o desalento do eleitor com a política brasileira, com a classe política, passando pelos efeitos da pandemia, e até mesmo por ferramentas criadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), como o aplicativo que permite justificar o voto pelo celular.

Historicamente o índice de abstenção já é alto no país, ficando em torno de 18 a 20%, mas nos últimos pleitos o TSE tem registrado um significativo aumento de pessoas que não comparecem para. Muitas delas, inclusive, nem justificam a ausência, pagam a multa (que não é alta), e deixam o título em situação regular.

Tal comportamento, somado ao fato de a pandemia ainda não ser um problema resolvido, faz com que especialistas apontem para a possibilidade de mais de 35% dos eleitores não comparecerem às urnas em 15 de novembro. Isso seria recorde, já que em boa parte do país a abstenção ficou perto de 30% nas eleições de 2018.

Se tal cenário se verificar em Araraquara, por exemplo, o resultado seria que mais de 60 mil araraquarenses deixariam de votar este ano, comprometendo em muito o quociente eleitoral, que pode retornar a números eleições disputadas há muitos anos.

E este não seria um fenômeno só brasileiro, já que monitoramento do Instituto Internacional pela Democracia e Assistência Eleitoral (Idea, na sigla em inglês), mostra que, de 41 eleições realizadas neste ano em diferentes países, 26 (63% do total) registraram aumento na abstenção na comparação com pleitos anteriores.

Na França, onde o voto não é obrigatório, apenas quatro em cada dez eleitores compareceram às urnas para votar nas eleições municipais de junho, levando ao recorde de 60% de abstenção (12 pontos percentuais a mais do que o observado no pleito municipal anterior, em 2014).

"Neste ano, teremos pessoas com medo de contrair covid-19 e fazendo aquele cálculo de se vale a pena sair de casa considerando o efeito pequeno do seu voto individual no resultado da eleição. Somando isso com um processo em que as pessoas já estão desalentadas com a política, a minha expectativa é que aumente muito o não comparecimento. Acredito que teremos abstenção recorde neste ano", o cientista político Ivan Filipe Fernandes, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) afirma o professor.

 

Idosos e mais pobres

O cientista político Antonio Lavareda, presidente do conselho científico do Instituto de Pesquisas Sociais Políticas e Econômicas (Ipespe), acredita que a pandemia afetará a disposição do eleitor em votar por duas formas: tanto devido ao temor de ser infectado ao sair de casa, quanto pelo esfriamento da campanha eleitoral, já que neste ano a realização de eventos na rua e de debates pelas redes de televisão foi reduzida como forma de evitar o contágio da doença.

Segundo Lavareda, o impacto de um aumento na abstenção sobre o resultado das eleições dependerá de como esse fenômeno afetará diferentes segmentos da sociedade.

"Se a pandemia afastar das urnas especialmente idosos (grupo de risco da covid-19) e os mais pobres, que historicamente têm taxas maiores de abstenção, naturalmente candidatos que tenham apoio maior desse segmentos perderão mais votos com a abstenção", exemplifica.

 

Aplicativo  deixará mais simples justificar o voto

O cientista político Julian Borba, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), diz que uma abstenção alta "pode acarretar problemas de representatividade do eleitorado no sistema político", na medida em que certos segmentos tendem a ser mais afetados. O eleitor, ele explica, faz um cálculo entre o "custo" de comparecer à urna e o peso do seu voto. Com isso, em geral são os mais pobres, menos escolarizados e moradores de áreas menos urbanas que se abstêm em maior proporção.

"E esse problema de alteração da representatividade ocorre mais fortemente na eleição vereadores", nota o professor, já que os candidatos ao Poder Legislativos costumam ter uma base eleitoral mais segmentada.

Para Borba, enquanto o risco para a saúde causado pela pandemia vai elevar o "custo" de comparecer à urna nesta eleição, a possibilidade de justificar a ausência por aplicativo de celular, por outro lado, reduzirá o "custo" de faltar ao pleito e justificar depois.

Pela primeira vez neste ano, o aplicativo e-Título, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), poderá ser usado pelos eleitores para justificar a falta até 60 dias depois da eleição, com objetivo de reduzir aglomerações nas sessões eleitorais onde tradicionalmente isso é feito. Segundo a Corte, a tecnologia de geolocalização impedirá que o eleitor justifique sua ausência mesmo estando na sua cidade de votação.

"Não comparecer já é muito pouco custoso, pois a multa para quem deixa de votar e não justifica é de apenas R$ 3,50. Agora, o custo de abstenção está sendo praticamente zerando, já que basta se cadastrar (no aplicativo), justificar meu voto e está tudo ok. Então, pode se esperar também um efeito negativo nesse sentido", prevê o professor da UFSC.

Neste ano, porém, outro fato pode ter o efeito de contribuir para um número menor de abstenção, mesmo que mais gente falte ao pleito. Borba lembra que esse dado costuma ser inflado por eleitores que já morreram, mas que continuam no cadastro da Justiça Eleitoral. Nos últimos anos, no entanto, o TSE está gradativamente realizando o recadastramento biométrico dos eleitores, o que deve reduzir esse efeito de brasileiros que constam como eleitores mesmo após a morte.

Com informações da Record